Na relação entre amigos, há direitos e deveres que devem ser conhecidos por todos e há limites e fronteiras intransponíveis, sob pena de a relação não voltar a ser a mesma.
Um amigo não critica publicamente o seu amigo. Pode e deve fazê-lo em reserva, assim que o facto aconteça.
Imagine este cenário: o seu amigo é acusado de cometer um crime. As autoridades investigam e ele vai a tribunal, para ser julgado pelos juízes. Caberá à Justiça absolver ou condenar. Jamais os amigos devem assumir, publicamente, o papel de juízes, porque esse não é o seu papel. O seu papel é o de ajudar, da melhor maneira possível, alertando para as consequências dos erros.
Os tribunais são um dos quatro órgãos de soberania do nosso país. A eles cabe gerir /aplicar a justiça e defender o interesse de todos nós, cidadãos. Quando outros se encarregam do papel dos tribunais, caem por terra os princípios da presunção de inocência e da separação dos poderes, previstos na Constituição da República Portuguesa.
Quando essa “desregulação dos poderes e de funções” vem de terceiros (por exemplos, os vizinhos do lado, os colegas de trabalho,…) há alguma displicência para com a situação; vindo do “amigo” é algo muito difícil de aceitar e surge a revolta. Ao amigo caberá falar com o seu amigo, para que situações como aquela não voltem a acontecer. Até lá, há que ter paciência e esperar que a justiça faça o seu papel.
No limite, a situação pode ser tão demorada e insustentável, que a amizade termine e os laços quebram-se para sempre. E atrás desse amigo, outros poderão ir embora, porque percebem que a amizade desse amigo não é genuína, nem sólida. Depende da imagem pública do amigo.
A vida no seu todo, nas várias esferas e contextos, tem de se preencher de ética e de moral. Parecem a mesma coisa mas não são, embora devam coexistir, na teoria e na prática.
Esta história, faz-me lembrar o ditado antigo que diz:
“A César, não basta parecer sério. Também tem que ser”.
Não me lembro bem se o ditado é assim, mas parece-me que soa bem assim.
Nota: O objetivo deste texto não é criticar “o amigo” ou desculpabilizar o “amigo do amigo”. É tão somente reflectir acerca das fronteiras, papéis e funções que cabem aos vários órgãos de soberania e aos deveres e direitos que temos como cidadãos.
(Diário do Sul, 09.05.2018)


